Anos de Ouro: 9 novelas que fizeram sucesso entre 1985 e 1990

Anos de Ouro: 9 novelas que fizeram sucesso entre 1985 e 1990

A teledramaturgia da Rede Globo viveu um período de brilho inigualável entre 1985 e 1990. No antigo horário das oito, o Brasil parava para acompanhar tramas que uniam qualidade técnica, textos afiados e produções cinematográficas.

Este ciclo, que começou com o fenômeno Roque Santeiro e encerrou com o sucesso de Rainha da Sucata, coincidiu com marcos históricos como o fim da censura e a abertura política. O portal Toda Mídia convida você para uma viagem no tempo pelas nove novelas que definiram uma era.

Resumo

Entre 1985 e 1990, a teledramaturgia da Rede Globo viveu um período de apogeu técnico e criativo, impulsionado pelo fim da censura e pela abertura política no Brasil. O ciclo é marcado por nove produções icônicas que registraram as maiores audiências da história da TV.

Os grandes marcos do período:

  • Fenômenos de Audiência: Roque Santeiro (74 pontos) e Tieta (65 pontos) estabeleceram recordes históricos que permanecem imbatíveis.
  • Crítica Social e Política: Tramas como Vale Tudo (o dilema da honestidade) e O Salvador da Pátria (ascensão de Sassá Mutema) refletiram diretamente as tensões e esperanças do Brasil da época.
  • Inovação e Clássicos: O período também trouxe o realismo fantástico de Mandala, o suspense de identidade em O Outro e o humor de Rainha da Sucata.
Foto: Divulgação Memória Globo
“Tô certo ou tô errado?”, bordão de Sinhozinho Malta (Lima Duarte), em Roque Santeiro, ficou na boca do povo | Foto: Divulgação Memória Globo

Roque Santeiro

A novela teve a censura como principal garota-propaganda. Dez anos antes da estreia, em 1975, a exibição da produção – com Francisco Cuoco, Lima Duarte e Betty Faria – foi barrada pela Ditadura Militar. Com vários episódios escritos e gravados, o folhetim foi censurado depois que militares descobriram que a obra era baseada na peça O Berço do Herói, de Dias Gomes, também censurada. 

Com o fim da ditadura, a nova produção – agora com José Wilker, Lima Duarte e Regina Duarte – pode entrar no ar. Sabendo da história, a população estava curiosa e parou diante da televisão desde o primeiro capítulo. A novela teve a maior média geral da história da Rede Globo – e da televisão brasileira – com 74 pontos, na época, equivalente a 2,11 milhões de domicílios na Grande São Paulo. 

A novela tem como pano de fundo a fictícia cidade de Asa Branca, que vive do turismo religioso há 17 anos após a suposta morte heróica de Roque, coroinha conhecido por esculpir imagens sacras. Enquanto alguns pedem sua canonização e outros rodam um filme em sua memória, Roque volta do exterior com uma história bem mais vergonhosa do que heróica. A elite local, composta por políticos, fazendeiros e religiosos, busca encobrir o que de fato aconteceu para não destruir de vez a cidade. 

A trama mistura drama com humor, como nas cenas da Viúva Porcina (Regina Duarte), e ainda traz à tona o famoso realismo fantástico de Dias Gomes, afinal, em Asa Branca, havia um lobisomem que aparecia nas noites de quinta para sexta-feira. 

Exibição: 24 de junho de 1985 a 21 de fevereiro de 1986 

Episódios: 209

Autor: Dias Gomes e Aguinaldo Silva 

Direção: Paulo Ubiratan

Divulgação Memória Globo
Selva de Pedra de 1986 é a segunda versão de um os maiores sucessos da Globo | Foto: Divulgação Memória Globo

Selva de Pedra

Após o sucesso de Roque Santeiro, a Globo decidiu apelar para o seu maior sucesso de até então: Selva de Pedra. Sem Janete Clair, morta anos antes, Regina Braga e Eloy Araújo foram chamados para adaptar uma nova versão da trama, que em 1972, chegou a 100% dos aparelhos ligados na novela. 

Com Tony Ramos, Fernanda Torres, Christiane Torloni, o folhetim não emplacou altos índices de audiência. 

A novela conta a história de Cristiano Vilhena, que foge para o Rio de Janeiro com Simone após uma briga fatal em sua cidade natal. Na capital, sua ambição é despertada ao trabalhar para o tio rico, e ele se vê dividido entre o amor pela esposa e a chance de subir na vida casando-se com a herdeira Fernanda.

Pressionado pelo vilão Miro, Cristiano se afasta de Simone, que sofre um acidente e é dada como morta. Tomado pela culpa, ele tenta seguir a vida, mas Simone retorna sob a identidade da sofisticada Rosana Reis para se vingar e confrontar o passado na “selva de pedra”.

Exibição: 24 de fevereiro de 1986 a 22 de agosto de 1986 

Episódios: 155

Autor: Regina Braga e Eloy Araújo

Direção: Walter Avancini 


Roda de Fogo 

A novela de Lauro César Muniz parece ser o ponta-pé inicial para a discussão sobre ética, valores, moral e corrupção explicitada em Vale Tudo. A trama entrou no ar durante o Plano Cruzado e o início da Assembleia Nacional Constituinte. 

Na história, o empresário Renato Villar (Tarcísio Meira) é um homem implacável que comanda um esquema de corrupção até descobrir que possui um tumor cerebral incurável. Diante da morte iminente, ele decide redimir seus erros e acaba se apaixonando pela juíza Lúcia Brandão (Bruna Lombardi), responsável por julgá-lo.

Enquanto busca regeneração, Renato precisa enfrentar a fúria da esposa, Carolina (Renata Sorrah), e as armadilhas de seu ex-aliado, o sinistro advogado Mário Liberato (Cecil Thiré). A trama foca no conflito entre o poder corporativo e a busca final por paz e justiça.

Exibição: 25 de agosto de 1986 a 20 de março de 1987

Episódios: 179

Autor: Lauro César Muniz 

Direção: Dennis Carvalho 

Foto: Divulgação Memória Globo
Francisco Cuoco interprestava dois personagens em O Outro | Foto: Divulgação Memória Globo

O Outro 

Em O Outro, o empresário rico Denizard de Mattos e o humilde comerciante Paulo Della Santa (ambos vividos por Francisco Cuoco) são sósias perfeitos que não se conhecem. Após uma explosão em um posto de gasolina, um deles é dado como morto, e o sobrevivente assume a identidade do outro, desencadeando uma confusão de personalidades e interesses financeiros.

A trama ganha força com a vilã Laura (Natália do Vale), que manipula a situação para manter o controle sobre a fortuna da família. Enquanto o protagonista tenta entender sua nova realidade, ele precisa lidar com as memórias fragmentadas e com o mistério sobre quem realmente sobreviveu ao acidente, vivendo uma vida que não lhe pertence.

Exibição: 22 de março de 1987 a 9 de outubro de 1987

Episódios: 173

Autor: Aguinaldo Silva 

Direção: Gonzaga Blota e Del Rangel

 Foto: Divulgação Memória Globo
Nuno Leal Maia, Vera Fischer, Gracindo Jr. e Carlos Augusto Strazzer em Mandala, 1987 | Foto: Divulgação Memória Globo

Mandala 

Em Mandala, a trama adapta o mito de Édipo para o Rio de Janeiro contemporâneo. Jocasta (Vera Fischer) abandona o filho recém-nascido após uma profecia terrível, mas, 25 anos depois, o destino coloca Édipo (Felipe Camargo) em seu caminho sem que ambos saibam do parentesco, dando início a uma paixão proibida.

O conflito atinge o auge quando Édipo, em uma briga de trânsito, acaba matando o próprio pai, o místico Paulo Silvino (Paulo Gracindo), cumprindo a profecia. Enquanto Jocasta tenta proteger o jovem, ela precisa lidar com as armadilhas do vilão Bibi (Gianfrancesco Guarnieri), em uma história marcada por esoterismo e tragédia familiar.

Exibição: 12 de outubro de 1987 a 13 de maio de 1988 

Episódios: 209

Autor: Dias Gomes, Marcílio Moraes e Lauro César Muniz  

Direção: Ricardo Waddington

 Divulgação Memória Globo
Regina Duarte e Glória Pires como Raquel e Fátima, em Vale Tudo | Divulgação Memória Globo

Vale Tudo 

Vale Tudo é considerada uma das melhores novelas já produzidas pela Rede Globo (a versão de 1988, é claro). Curiosamente, não é está sequer no top 5 de maiores audiências. A trama ocupa a nona posição com média de 56 pontos, equivalente a 2,10 milhões de domicílios na Grande São Paulo.

Na história, a honesta Raquel Accioli (Regina Duarte) é roubada pela própria filha, a ambiciosa Maria de Fátima (Glória Pires), que vende a única propriedade da família para tentar a sorte no Rio de Janeiro. Enquanto Raquel recomeça a vida do zero vendendo sanduíches na praia, Fátima se alia ao inescrupuloso César para dar um golpe e subir na hierarquia social.

A trama central discute se vale a pena ser honesto no Brasil, personificando a corrupção no vilão Odete Roitman (Beatriz Segall), uma poderosa empresária que despreza o país. O mistério sobre o assassinato de Odete parou a nação, transformando a busca pelo culpado em um dos marcos mais icônicos da teledramaturgia brasileira.

Exibição: 16 de maio de 1988 a 6 de janeiro de 1989

Episódios: 204

Autor: Gilberto Braga, Aguinaldo Silva e Leonor Bassères

Direção: Dennis Carvalho 

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Confira tabela com as maiores audiências no período

NovelaPontos de Audiência (Média)Domicílios (Milhões)
Roque Santeiro74 pontos2,11
Tieta65 pontos2,51
O Salvador da Pátria62 pontos2,36
Rainha da Sucata61 pontos2,39
Vale Tudo56 pontos2,10

O Salvador da Pátria

Em O Salvador da Pátria, o simplório boia-fria Sassá Mutema (Lima Duarte) é usado por políticos poderosos para abafar um escândalo de adultério na pequena cidade de Tangará. Acusado injustamente de um crime, ele ganha popularidade e acaba se tornando um fenômeno político, transformando-se de um homem analfabeto em um candidato à presidência.

A trama ganha profundidade com a paixão de Sassá pela professora Clotilde (Maitê Proença), que tenta educá-lo e protegê-lo das manipulações de figuras como o inescrupuloso Severo Blanco (Francisco Cuoco). A novela ficou marcada pela forte crítica social e pelas semelhanças que o público traçou com o cenário político real do Brasil na época.

A novela teve média de 62 pontos, equivalente a 2,36 milhões de domicílios da Grande São Paulo, e é a quarta maior audiência entre as novelas da Globo.

Exibição: 9 de janeiro de 1989 a 11 de agosto de 1989

Episódios: 186

Autor: Lauro César Muniz 

Direção: Paulo Ubiratan e Gonzaga Blota 

Divulgação
Tieta do Agreste, das páginas de Jorge Amado, direto para a televisão | Divulgação

Tieta

Em Tieta, a protagonista (Betty Faria) retorna à conservadora Santana do Agreste 25 anos após ser escorraçada pelo pai por seu comportamento liberal. Agora rica e poderosa, ela volta para se vingar da hipocrisia da família e da cidade, fingindo ser uma viúva casta enquanto agita a vida local com sua liberdade e modernidade.

O conflito principal envolve sua irmã invejosa, a vilã Perpétua (Joana Fomm), e a paixão proibida de Tieta por seu sobrinho seminarista, Ricardo (Cássio Gabus Mendes). A trama, baseada na obra de Jorge Amado, é uma celebração da quebra de tabus e do confronto entre o progresso e o atraso no sertão baiano.

Assim como Roque Santeiro, é a novela mais assistida da história da televisão brasileira, com 65 pontos de média e 2,51 milhões de domicílios da Grande São Paulo. 

Exibição: 14 de agosto de 1989 a 30 de março de 1990 

Episódios: 197

Autor: Aguinaldo Silva, Ana Maria Moretzsohn e Ricardo Linhares 

Direção: Paulo Ubiratan

Divulgação
Trio de sucesso na novela Rainha da Sucata da TV Globo | Divulgação

Rainha da Sucata 

Em Rainha da Sucata (1990), a emergente Maria do Carmo (Regina Duarte) enriquece com o negócio de ferro-velho do pai e constrói um império no coração de São Paulo. Apesar do sucesso, ela carrega o trauma de ter sido humilhada na juventude pelo socialite falido Edu Figueroa (Tony Ramos), por quem era apaixonada.

Para se vingar e realizar o sonho de entrar na alta sociedade, Maria “compra” um casamento com Edu, que aceita a união para salvar sua família da miséria. O conflito explode com a vilã Laurinha Figueroa (Glória Menezes), a madrasta de Edu, que faz de tudo para destruir a “sucateira” e manter as aparências da decadente elite paulistana.

A trama atingiu média de 2,39 milhões de domicílios na Grande São Paulo, chegando a 61 pontos. 

Exibição: 2 de abril de 1990 a 26 de outubro de 1990

Episódios: 179

Autor: Sílvio de Abreu  

Direção: Jorge Fernando

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