Para as novas gerações, parece difícil imaginar um mundo sem memes, cortes de podcasts ou canais como o Porta dos Fundos. No entanto, no longínquo ano de 1996, a TV aberta detinha quase exclusivamente a missão de fazer o Brasil rir. Foi nesse cenário, em 31 de março daquele ano, que a TV Globo fez história ao lançar o Sai de Baixo, transformando-o em um marco definitivo do gênero no país.
Leia mais sobre televisão no Toda Mídia
De Hebe a Glória Maria: 10 mulheres que marcaram a história da TV brasileira
Grade Voadora: SBT começa a semana com horários antigos após desastre no Ibope

A fórmula do sucesso no Arouche
A premissa era simples e resgatava a estratégia bem-sucedida da antiga TV Record com a Família Trapo: um programa gravado ao vivo em um teatro, com a presença calorosa da plateia. O cenário reproduzia a sala de um apartamento no Largo do Arouche, no centro de São Paulo, onde um elenco de atores tarimbados e novos talentos criava uma identidade única para a atração.
Em entrevista ao podcast Embrulha Sem Roteiro, a atriz Marisa Orth revelou que o plano inicial trazia Tom Cavalcante (Ribamar) e Cláudia Jimenez (Edileuza) como protagonistas. Enquanto isso, ela (Magda) e Miguel Falabella (Caco Antibes) atuariam como coadjuvantes, tendo ainda o suporte de Luis Gustavo (Vavá) e Aracy Balabanian (Cassandra).
Evolução e liderança de audiência
Ao longo dos anos, a estrutura do programa manteve-se sólida, apesar de mudanças pontuais. Entre as trocas de elenco, destaca-se a chegada de Márcia Cabrita, que interpretou a empregada Neide Aparecida e conquistou o público rapidamente.
Consequentemente, o sucesso foi imediato. Logo na estreia, a Globo superou a concorrência direta de Silvio Santos e seu Topa Tudo por Dinheiro. Assim, a sitcom consolidou-se como referência absoluta, gerando cenas marcantes que hoje circulam pelas redes sociais em formato de memes. Curiosamente, Luis Gustavo, o idealizador do projeto, ofereceu a ideia primeiro ao SBT, mas Silvio Santos recusou a proposta por considerar a produção cara demais.

A crise no humor da “Vênus Platinada”
Apesar desse passado glorioso, a emissora do Jardim Botânico não manteve a constância no setor. Atualmente, com exceção do SBT — que sustenta A Praça é Nossa há décadas —, quase todas as redes reduziram os investimentos no gênero. Na Globo, que já abrigou gênios como Chico Anysio e Jô Soares, essa ausência torna-se ainda mais sensível.
A crise acentuou-se em 2019, quando a emissora reformulou o setor em meio a um contexto de crescente conservadorismo na sociedade. O cenário agravou-se com a demissão de Marcius Melhem, então responsável pela área, após acusações de assédio por atrizes e roteiristas.
O desafio da retomada
Como resultado desse turbilhão, a Globo extinguiu programas tradicionais como o Zorra, o Fora de Hora e a clássica Escolinha do Professor Raimundo. Em seguida, a aposta em séries do Globoplay, como Eu, a Vó e a Boi e Encantados, apresentou boa qualidade técnica, mas não empolgou a audiência da TV aberta da mesma forma.
Agora, sob o comando da diretora Patrícia Pedrosa, a Globo tenta uma nova reestruturação. O projeto recente, Aberto ao Público, aposta em humoristas da internet e no formato de stand-up, já com uma segunda temporada garantida.
Relembre uma das aberturas do programa
O que resta do fenômeno?
Mesmo com os novos esforços, a emissora ainda busca o impacto cultural que o Sai de Baixo representou nos anos 1990. O programa não apenas dominou o gênero, como rendeu um especial em 2013 e um filme em 2019. Bordões como o clássico “Cala a boca, Magda” permanecem vivos no imaginário coletivo.
Por fim, a irreverência, a espontaneidade e a liberdade para improvisar parecem ser as peças que faltam no quebra-cabeça atual. Talvez a naturalidade de rir de si mesmo seja a pista definitiva para que os novos programas reconquistem o público e tragam o brilho do humor de volta à televisão aberta.