Até o final da década de 1980, o telespectador brasileiro estava acostumado a um padrão muito rígido de telejornalismo. Os apresentadores, chamados tecnicamente de “locutores de notícias”, sentavam-se em bancadas engravatadas, mantinham uma postura milimetricamente neutra e limitavam-se a ler, de forma protocolar, os textos que saíam das laudas. A expressão facial era quase nula; a opinião, inexistente.
Boris Casoy volta ao SBT após 29 anos: “Ainda tenho muita lenha para queimar”
Tudo mudou na noite de 17 de agosto de 1988. Sob o comando de Boris Casoy, estreava no SBT o lendário TJ Brasil (Telejornal Brasil). Naquela noite, a televisão brasileira conhecia, oficialmente, a figura do âncora opinativo.

A quebra do paradigma da neutralidade
Contratado por Silvio Santos para dar peso e credibilidade ao departamento de jornalismo da emissora paulista, Boris Casoy trouxe do jornalismo impresso a cultura do editorial. Ele não queria apenas relatar o fato; ele queria analisar, contextualizar e, quando necessário, demonstrar sua indignação.
Boris introduziu no ar os comentários ao vivo, as famosas “caras e bocas” de desaprovação econômica e, claro, os bordões que viraram febre nacional. O histórico “Isto é uma vergonha!” não era apenas um jargão de efeito; era o reflexo de um Brasil que acabava de sair da ditadura militar e reaprendia a exercer a cidadania e a cobrar a classe política.
O impacto nos bastidores e a herança para o futuro
A postura de Boris Casoy no TJ Brasil causou um terremoto na concorrência. Inicialmente criticado pelos puristas — que viam na opinião do apresentador uma quebra do manual de jornalismo —, o formato rapidamente provou sua força comercial e de audiência. O público queria proximidade, queria alguém que traduzisse o caos da inflação e das crises políticas com a mesma indignação das ruas.

A experiência do TJ Brasil abriu as portas para a reformulação de todos os principais telejornais do país nas décadas seguintes. A liberdade de movimentação, o tom coloquial e a autonomia do apresentador para interferir no roteiro, características comuns nos dias de hoje, nasceram ali, na emissora de Silvio Santos, sob a liderança de um jornalista que se recusou a ser apenas uma voz bonita lendo o prompter.