O rei do Ibope perdeu a coroa? O que o fiasco de “Quem Ama Cuida” diz sobre o futuro da Globo

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A noite de segunda-feira, 18 de maio de 2026, entrou para a história da teledramaturgia brasileira pelo pior motivo possível. Nem mesmo a assinatura conjunta de Walcyr Carrasco — historicamente o maior “salvador de pátrias” do Ibope global — e Cláudia Souto conseguiu evitar o inevitável: Quem Ama Cuida registrou a pior audiência de uma estreia de novela das nove nos últimos 57 anos.

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Mais do que um número frio (os 21,7 pontos na Grande São Paulo), o primeiro capítulo expôs uma sequência inédita de vexames. Em São Paulo, o folhetim principal da TV brasileira terminou o dia como a quarta atração mais vista da casa, atrás do Jornal Nacional, do SP2 e até da novela das sete, Coração Acelerado. No Rio de Janeiro, a situação foi ainda mais dramática, despencando para a sexta colocação.

O que aconteceu com o horário nobre?

A saturação da fórmula e o “efeito esteira”

Atribuir a queda histórica apenas à migração do público para o streaming ou para as redes sociais é uma análise preguiçosa. O buraco é mais embaixo. A verdade incômoda que os bastidores do Projac tentam ignorar é a saturação dos seus principais contadores de história.

A Globo transformou seus autores de grife em operários de uma esteira de produção industrial. Walcyr Carrasco, que emendou projetos densos e desgastantes nos últimos anos, foi acionado mais uma vez como o botão de emergência da emissora. O resultado? Uma sinopse que, já na primeira semana, soou repetitiva. O público, que não é bobo, identificou os mesmos clichês, os mesmos ganchos requentados e a mesma estética de sempre.

Quando a novela das seis (A Nobreza do Amor) encosta no Ibope da novela das nove, o diagnóstico é claro: o telespectador não abandonou a TV; ele apenas rejeitou a proposta da faixa principal.

Adriana e Pedro em Quem Ama Cuida (Divulgação)
Adriana e Pedro em Quem Ama Cuida (Divulgação)

A arrogância do “jornalismo declaratório” vs. O streaming

Enquanto a nova trama das nove sangrava, a concorrência sorria. O público que fugiu da Globo migrou em massa para as novelas mexicanas ou encontrou refúgio na leveza de programas como o Casa do Patrão, que abocanhou seu terceiro melhor Ibope do ano.

Há anos o mercado discute o “esvaziamento” da TV linear. No entanto, o sucesso estrondoso da transmissão da Convocação da Seleção Brasileira por Carlo Ancelotti na mesma tarde — que cravou picos de mais de 30 pontos no Rio — prova que o público ainda sabe onde fica o botão do controle remoto. As pessoas querem o fato, o evento, a novidade. O que elas não aguentam mais é o “jornalismo declaratório” que tomou conta de algumas produções ou a previsibilidade do melodrama das nove.

Se Quem Ama Cuida não recalibrar a rota imediatamente, o mercado publicitário — que já olha com lupa o retorno de cada centavo — começará a pressionar por mudanças drásticas. O rei do Ibope não perdeu a coroa por falta de súditos, mas porque esqueceu como se governa a atenção do povo.

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