Sangue, suor e gesso: Os bastidores milagrosos das grandes novelas de época do passado

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Assistir a uma novela de época na televisão hoje em dia é uma experiência cercada de facilidades tecnológicas. Se o diretor precisa de uma frota de bondes circulando pela São Paulo de 1920, ou de uma multidão de camponeses no século XIX, a computação gráfica resolve o problema com algumas semanas de pós-produção. Mas houve um tempo em que colocar o passado no ar exigia um esforço que beirava o milagre.

Nas décadas de 1970, 1980 e início dos anos 1990, produzir tramas de época na teledramaturgia brasileira era um teste de fogo para a criatividade e a resistência física das equipes de cenografia, figurino e engenharia técnica.

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O desafio monumental das cidades cenográficas “na raça”

Sem o auxílio de telas verdes (chroma key) sofisticadas ou ferramentas digitais, as emissoras precisavam erguer vilas, palacetes e ruas inteiras em tamanho real. O material utilizado? Basicamente madeira, gesso, sisal e muita tinta.

O Sheik de Agadir, novela da Globo (Memória Globo)
O Sheik de Agadir, novela da Globo (Memória Globo)

Cidades cenográficas como as de Escrava Isaura (1976) ou a icônica Berlim Ocidental recriada nos estúdios da Globo desafiavam as leis da física. As estruturas eram extremamente vulneráveis ao clima. Uma chuva mais forte de verão podia derreter fachadas inteiras de gesso, forçando equipes a passarem madrugadas em claro reconstruindo cenários para que as gravações do dia seguinte não fossem canceladas. Além disso, o risco de incêndios causados pelos refletores antigos e de alta caloria era uma constante assombração nos bastidores.

O garimpo de figurinos e o truque das lentes

Outro pesadelo logístico era o figurino. Para vestir centenas de figurantes com roupas coloniais ou da virada do século, os profissionais de produção tornavam-se verdadeiros arqueólogos. Como os acervos das emissoras ainda eram limitados, era comum o “garimpo” em antiquários, brechós e até em teatros antigos pelo país. Quando não encontravam tecidos idênticos aos da época, os diretores de arte recorriam a truques de iluminação e lentes especiais na câmera para camuflar texturas modernas e manter a ilusão histórica.

Toda essa engenharia artesanal dava às produções do passado um charme único, mas cobrava um preço alto em horas de trabalho. Cada capítulo colocado no ar representava o suor de marceneiros, pintores e costureiras que transformavam a escassez de recursos em telas inesquecíveis. Um verdadeiro patrimônio técnico que moldou a excelência que a TV brasileira ostenta hoje no mundo.

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