Antes da polarização, A Mulher do Prefeito satirizava a política brasileira

Série protagonizada por Denise Fraga e Tony Ramos transformou a corrupção, o poder e a política em humor inteligente e continua surpreendentemente atual mais de dez anos após sua estreia
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A Mulher do Prefeito é um lembrete de que a televisão brasileira já foi muito mais ousada ao retratar os bastidores do poder. Em tempos de eleições, é inevitável lembrar de personagens como Odorico Paraguaçu, de O Bem-Amado, e de produções como O Brado Retumbante, que escancaravam, por meio da sátira e do drama, as contradições da política nacional.

Foi exatamente nessa tradição que surgiu A Mulher do Prefeito, exibida pela TV Globo entre outubro e dezembro de 2013. Escrita por Bernardo Guilherme e Marcelo Gonçalves, a série entregou uma crítica inteligente ao universo político sem abrir mão do humor. Ao mesmo tempo, ofereceu a Denise Fraga uma das atuações mais marcantes de sua carreira.

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Denise Fraga viveu Aurora, a mulher do prefeito, que se vê obrigada a assumir a prefeitura (Foto: TV Globo)

A Mulher do Prefeito transformou a política em uma grande comédia

Na trama, Denise Fraga interpreta Aurora, esposa do prefeito da fictícia cidade de Pitanguá. Já Tony Ramos vive Reinaldo Rangel, um político ambicioso que mente para a população e para si próprio com tanta frequência que perde a capacidade de distinguir realidade e fantasia. Ela foi obrigada a assumir a prefeitura, da qual era vice, após o marido ser preso acusado de desvio de dinheiro.

Hoje, o personagem parece antecipar muitos comportamentos que ganharam força na era das fake news.

A série estreou justamente em 2013, ano das Jornadas de Junho. O país vivia um momento de forte desgaste da política tradicional, e esse ambiente certamente favoreceu uma produção tão direta ao abordar corrupção, interesses pessoais e abuso de poder.

Mesmo tratando de assuntos delicados, o texto encontrava espaço para desenvolver o romance de Aurora quando ela assume, inesperadamente, a prefeitura. O equilíbrio entre humor, crítica social e emoção tornou a narrativa ainda mais eficiente.

Em entrevista ao site Teledramaturgia, Tony Ramos resumiu perfeitamente o espírito da produção:

“A comédia é a melhor forma de analisar o ridículo dos poderes. Quando a pessoa acha que tem tanto poder, nada melhor do que a comédia para ridicularizar isso.”

A série continua atual mais de dez anos depois

Hoje disponível no Globoplay, A Mulher do Prefeito permanece atual justamente porque utiliza o humor como ferramenta de reflexão. A série mostra que rir dos governantes nunca significou banalizar a política, mas expor seus excessos e suas contradições.

Mais de uma década depois, a produção também serve como um lembrete incômodo. Em uma época em que a televisão aberta frequentemente prefere o pragmatismo da neutralidade para evitar desgastes e boicotes, A Mulher do Prefeito demonstra que a sátira continua sendo uma das formas mais eficientes de provocar reflexão.

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