A televisão brasileira vive um paradoxo: nunca se produziu tanto conteúdo jornalístico e, ao mesmo tempo, nunca estivemos tão carentes de informação pura, isenta de “ruídos” opinativos ou de uma estética datada. Enquanto o streaming avança como um rolo compressor, a TV parece ter aceitado o papel de coadjuvante, definhando em qualidade técnica e editorial.
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Os números não mentem: A fuga dos olhos
A migração do público não é apenas uma percepção, é estatística. Dados recentes do Kantar IBOPE (2026) mostram que o consumo de vídeo sob demanda (streaming) já ocupa mais de 25% do tempo total de vídeo dos brasileiros, superando em muitas faixas horárias a soma de todos os canais de TV paga. Hoje, para muitas famílias, o cabo da antena foi substituído pelo cabo de rede; a Smart TV é o portal, e o sinal aberto, uma lembrança distante.
O Jornalismo: O último refúgio abandonado
O streaming ainda não encontrou uma fórmula eficiente para o jornalismo factual em tempo real. Este deveria ser o “porto seguro” da TV aberta e fechada, mas o que vemos é uma reação tímida — ou pior, um erro de rota.
O sensacionalismo do “buraco na rua”
Na TV aberta, especialmente nos noticiários locais, assistimos a um entrelaçamento quase pornográfico entre notícia e opinião. Para preencher horas de grade, repórteres são instigados a transformar o relato de uma rua esburacada em uma diatribe contra a corrupção sistêmica do país. O “outro lado”, pilar do bom jornalismo, é frequentemente apresentado acompanhado de sorrisos irônicos ou comentários sarcásticos, descredibilizando a própria função informativa.
O vício do “eu apurei”
Já na TV fechada, a notícia “fria” e o fato consumado deram lugar ao jornalismo puramente declaratório. Tudo virou análise de bastidor. O repórter não é mais o narrador do fato, mas o protagonista da própria apuração. Frases como “eu apurei”, “conversei com uma fonte” e “me garantiram” preenchem o vazio de imagens e de fatos novos, transformando o noticiário em uma sucessão de palpites fundamentados, mas raramente em informação visual e factual de qualidade.

Vale o investimento?
A pergunta que fica para os executivos é: nem no jornalismo — o único nicho onde o streaming ainda não domina — vale a pena investir? Repensar a fórmula atual não é apenas uma questão de estética ou de “voltar a ser o que era”, mas de sobrevivência.
Se a TV continuar a entregar um conteúdo que mistura opinião barata com falta de investimento técnico, ela não estará apenas perdendo espaço para a tecnologia, mas entregando de bandeja o seu último ativo de valor: a credibilidade da notícia em tempo real.