De olho no olho: Netflix instala câmeras em lares brasileiros para medir a atenção do público a comerciais

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Esqueça as métricas tradicionais de publicidade baseadas apenas em “impressões” (o número de vezes que um anúncio é carregado na tela). Em uma parceria inédita no país com a empresa australiana de tecnologia Amplified, a Netflix iniciou neste mês de maio um projeto inovador — e controverso — no Brasil: a instalação de sensores e câmeras dentro da casa dos assinantes para monitorar, literalmente, se eles estão prestando atenção nos comerciais do plano com anúncios.

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Nesta primeira fase, a amostragem conta com 250 domicílios voluntários no território nacional. Os participantes, vale destacar, são remunerados para abrir a intimidade de suas salas de estar para o monitoramento da plataforma.

O sistema capta o sinal sonoro da Netflix para saber exatamente o momento em que um bloco comercial começa (Reprodução)
O sistema capta o sinal sonoro da Netflix para saber exatamente o momento em que um bloco comercial começa (Reprodução)

A Tecnologia: Como o streaming vigia o seu olhar

Os dispositivos instalados pela Amplified são acoplados à televisão e funcionam por meio de uma combinação de câmeras de alta precisão e sensores auditivos.

O sistema capta o sinal sonoro da Netflix para saber exatamente o momento em que um bloco comercial começa. A partir daí, a câmera entra em ação fazendo o rastreamento ocular (eye-tracking) dos telespectadores para mapear a fixação do olhar.

A regra da privacidade: Ciente dos debates éticos que a tecnologia levanta, a Netflix correu para garantir uma blindagem jurídica: o equipamento possui filtros de inteligência artificial programados para não registrar imagens ou dados de crianças.

O “Termômetro do Foco”: Ativa, Passiva ou Ausente

Com os dados coletados, a inteligência da plataforma classifica o comportamento do consumidor brasileiro em três prateleiras bem distintas:

  • Atenção Ativa: Quando o usuário crava os olhos na TV durante o anúncio. É o “santo graal” da publicidade, gerando maior memorização da marca.
  • Atenção Passiva: Quando o espectador alterna o foco (olha para o lado, conversa), mas mantém a percepção do conteúdo. Segundo Will Zanette, gerente sênior de mensuração da Netflix Brasil, esse estado ainda tem forte impacto para campanhas de reconhecimento de marca (awareness).
  • Atenção Ausente: O pesadelo dos anunciantes. Ocorre quando o usuário levanta do sofá ou — o comportamento mais comum do mundo moderno — pega o celular assim que o comercial começa. Nesse caso, o sistema registra atenção nula.

O teste no México e o recado para a concorrência

O projeto não é um tiro no escuro. A Netflix usou o mercado mexicano como laboratório e os primeiros resultados foram robustos. Por lá, a plataforma registrou 64% de atenção ativa, 19% de passiva e apenas 16% de ausente.

Armada com esses dados, a empresa apressou-se em declarar que superou o desempenho de canais de TV aberta, TV conectada e outros streamings rivais em engajamento — embora, por questões de mercado, não tenha revelado os nomes dos concorrentes analisados.

Dividida em fases trimestrais, a pesquisa brasileira promete entregar o seu primeiro relatório consolidado no segundo semestre de 2026. O objetivo final da Netflix, que divide os serviços da Amplified com gigantes como Google, Amazon e Twitch, é criar uma moeda de troca comercial muito mais valiosa para cobrar mais caro por seus espaços publicitários.

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